Acho que ainda não me tinha despedido como deve ser deste blog. No fundo, ainda não me tinha sequer despedido da minha vida antiga. Ainda não o fiz, mas vou tentando. É que há um ano tinha uma vida e agora outra completamente diferente. Há um ano começava a receber como nunca recebi na vida e a gastar como nunca gastei na vida. Há um ano deixava para trás uma vida em que me andava a enganar a mim mesmo, só para me enganar um pouco mais. Começava aquilo a que posso chamar de uma profunda queda ao pior que há em mim. E isto teve coisas boas, mais boas que más de certeza. Bati com a cara numa muro de defeitos. E estes galos têm o seu quê de bom e conhece-los a partir de nós, aos defeitos, faz com que saibamos pelo menos para onde apontar.

Em Barcelona fui tentando cortar um a um e saí de lá feliz com o resultado. Fiz amigos, cresci, melhorei o meu cv, concretizei vontades, mitos antigos… Mas houve muita coisa que acabou por se revelar apenas cá. Cá voltei a bater nesse mesmo muro. A verdade é que a realidade a que eu quero pertencer está por aqui e nessa realidade o muro continua a existir.

Há tanto por resolver e é nestes dias que o vou tentando deitar abaixo, ao muro, à parede de defeitos, uns que tenho, outros que sei que são só sombras do passado. É que cá há passado. E para o derrubar uso palavras que me tentem acalmar, que me deixam as mãos feridas de tentar e não conseguir.

E um ano depois de ter estado a fazer as malas para me ir embora de Lisboa, estou a fazer a mala para Barcelona. Para uma entrevista de emprego em que adoraram o meu cv, para uma vida que eu sei que não quero, mas tenho medo que tenha de ser.

Pertenço aqui, a Lisboa. Estou com os meus amigos outra vez, não com todos claro, o tempo e as escolhas trataram disso. Mas estão cá as pessoas de quem ainda tenho saudades, algumas que sei que posso reencontrar. E não quero fugir, porque acredito que há coisas que ainda podem ser boas cá. E cá é também tempo de novas ideias e de ter uma derradeira coragem de avançar com um projecto, um objectivo, tal como prometi a mim mesmo que faria quando voltasse.

Escrevo agora provavelmente para mais ninguém, mais para mim do que para alguém, numa de tentar, ironicamente, acabar com este narcisismo canibal. Numa tentativa de me lembrar para que não vale a pena andar virado para mim próprio, quando o que está à minha volta é o que me faz feliz.

Até ao próximo blogue!

Vou-me embora e hoje vou fazer o que nunca fiz porque nunca precisei. Vou-me embora e vou falar da Barcelona que nunca será bem explicada porque fica em mim, fica no que fica, fica aqui, fica na minha cabeça, na minha memória, nas coisas que nunca direi.

Vou-me embora e hoje lembro-me do Miguel Hall, que foi um dos meus melhores amigos, que é diferente, que só fala em sexo, como toda a gente. Vou-me embora e lembro-me da Ana, querida, de Lisboa, um amor, com um sorriso bonito. Da Maria e da forma calma de ser. Da Micaela, do brilho e optismo que tem. Da Filipa, que fala comigo como nunca ninguém falou, que é das poucas pessoas que te acrescenta alguma coisa à vida que nao sejam cliches ou repetiçoes inacabaveis. Da Sara que é uma asneirenta descontrolada, que nao tem nada a ver comigo mas de quem eu gosto estupidamente, por quem eu tenho respeito porque veio sozinha para Barcelona sem nada. Da Elisabete que tem 33 anos e ainda nao sabe bem o que esta a fazer da vida e ainda bem porque ao menos admite e nao se poe com merdas e é incrivelmente boa pessoa.

Da Inês e do sorriso mais querido que eu vi em Barcelona. Da Mafalda que sabe o que é sair e rir, divertir, estar bem, sem show offs ou pretensoes. Da Lau e do seu potencial, da Lau e da forma absolutamente querida de ser, da Lau e da forma como está quase sempre bem disposta e alinha em desafíos, da Lau e do que significa, porque significa. E volto e lembro-me da Marta e do Miguel, do Soeiro, do Chico, das dezenas de pessoa do Porto que conheci e que sao impecaveis.

Vou-me embora e hoje lembro-me da Andrea. Que foi das poucas pessoas que me deu na cabeça a séria por ser desleixado com alguns trabalhos na faculdade. Da Helena e daqueles olhos, da Helena e das histórias de papagaios. Do Nacho e da forma como em espanhol nos entendiamos e com quem chorei a rir. Do Fredy e do seu sorriso constante. Da Marina e do seu metro e oitenta, do skate, das histórias das Astúrias que conquistaram Portugal. Do Miguel o colombiano egocêntrico num bom sentido, do olhar da Gemma, da elegancia da Carmen, do descontrolo da Lídia que também so conhecia Portugal por causa das toalhas.

Piro-me e lembro-me do Paulo e do seu chapéu. Do Luís e da sua guitarra. Do outro Luís e das vezes que fomos ä neve. Do Kepa e da sua camara de filmar, do Kepa e da sua irma chilena. Do Carlos e do Pepe e da antiga casa da Maria. Do Henrique, one Henrique, one cup. Do Falcao e das piadolas. Da Sofia Avila e de um amor platónico e impossível. Da Claire francesa, do André português da BTV. Da Amanda, da Ivette.

E vou-me embora e lembro-me da Gigi, que houve a mesma cançao, que foi das maiores companhias, melhores amigas, também maiores atrofios, que também sao necessários. Da Gigi e das dezenas de copos de vinho, do cinema, dos passeios à praia. E vou-me embora e lembro-me da Foxy que parece a Marta, do Fred e da Maria Joao. E lembro-me do Manel, da forma lenta e irritante como fala, mas da naturaldiade com que vive, da boa mesa, do queijinho, chouriço e vinho em cima da mesa.

E vou-me embora e lembro-me do Joao que me ofereceu o skate que mudou a minha vida, do skate que me lembrou peraí que se calhar isto de trabalhar na sic era mesmo uma grande merda. Do Tiago Abreu e do seu bigode, do Tiago Abreu como primeiro, com o Joao, compañero de piso de Barcelona. A Ana Canosa e da maneira como diz Mike. Da Maria e da maneira como cagou para tudo e veio viver para Barcelona com o namorado. Da Catarina Benzinho por ser despachada, desportiva, andar a 190 na autoestrada, apanhar centenas de euros em multas e mesmo assim parecer uma dondoca elegante e trabalhar em moda.

Do Rodrigo e do tempo que demorava a dizer uma frase, do Rodrigo por gostar de drum dubstep e ter fritado comigo o cérebro no razz. Do Sílvio e da massa que me ensinou a fazer, do Miguel Neto e dos seus projectos.

Vou-me embora e lembro-me da visita da Marina e da Maria Joao, da ida a Sitges. E vou-me embora e lembro-me da Vanessa, que nao sabe mas é importante, que é elegante, bonita, interesante. Que desafia e diz que sim a desafíos. Da Vanessa que consegue dizer as coisas mais absurdas, desbocadas e erradas nas alturas erradas e ter piada à mesma e por isso.

Vou-me embora e lembro-me da Rita e do Alex, outra vez do Miguel e da Maria, que me apresentaram a Nou de La Rambla 9, a casa que me mudou, fez sorrir, sentir bem, descansado, com pica. A casa onde passaram tantos amigos meus, tantos amigos deles, tantos cruzamentos, conhecimentos, misturas. A casa das festas com centenas de pessoas. A casa que mesmo assim era cozy, que tinha pouca luz, mas era boa de viver, para viver.

E vou-me embora e lembro-me da chinoca da loja da fruta, do Paqui da loja de baixo, que é da minha idade, me oferece bebidas, fala comigo sobre criquet e diz que nao pode viajar porque tem de trabalhar no familly business. Dos monhés do dia, dos benzemás da vida que andam a roubar turistas. Do Katia e do Mahandra, que me convidaram para beber cha e comer em casa deles no Raval, às oito da manha de um sábado. Da gente da Nou de La Rambla, do Rincon del Artista depois da Nasty Monday, do sítio onde cortava o cabelo, do Antoine.

Das pessoas todas que passaram pela minha vida, das dezenas que nunca mais verei, das centenas de quem nao saberei o nome e destas. Desta todas sobre quem escrevi, que levo, que estimo, algumas que adoro, algumas que quero voltar a ver, algumas que quería levar comigo e todas, todas, que me fizeram feliz.

Up on a plane

March 9, 2011

As pessoas escrevem que estão bem porque são estúpidas. Quem está bem não escreve “estou mesmo bem”. Não é preciso enganarem-se meus amigos. Mas fod*-se. Hoje estou mesmo bem. Nem que seja só por um dia hoje acordei feelinggggg good.  Nem que seja só esta hora, os minutos desta música, estou mesmo feelingggg good. É bom quando ninguém tem absolutamente nenhuma influência negativa em ti. E quero mesmo voltar. Para a minha prancha, a minha praia, o meu carro e as minha música. Peace.

Festival da Canção

March 6, 2011

Há mais de 40 anos que aquele festival existe, dizem já enviámos canções óptimas – eu não sei – e nunca ganhámos. Sempre que o vejo, parece-me desinteressante, desactualizado, cinzentão. Para mim é mais uma das realidades em que nos sentimos sempre inferiores a outros países europeus. Pelo menos vamos para lá fazer uma coisa completamente fora, para que se perceba que aquilo está completamente fora. Os dias de hoje estão completamente fora.

E a música é fraca , parece uma brincadeira, mas fala de uma coisa séria e provavelmente vai ajudar – por mais pequena que seja – a criar uma agitação em Portugal. Quem amava o festival, ficou verde e vai mandar vir. Quem é novo e está farto vai aproveitar esta pica que dá quebrar regras. E ridicularizou-se uma tradição que provavelmente já não fazia sentido. E se as pessoas quiserem pegam neste pequeno incidente e acordam. Estou curioso para saber como vai ser dia 12 e tenho vontade de ir a Portugal.

Amanhã todos os portugueses vão lembrar-se de que algo não está bem.

Cool

March 4, 2011

Vou mesmo ter saudades disto: chegar a casa da discoteca mais conhecida de Barcelona e a minha roupa não cheirar a tabaco.

Atentar: em Espanha não se pode fumar em bares e discotecas. Ponto. E é tão bom.

Duas semanas

March 3, 2011

Estou todo borrado.

Ops

March 2, 2011

Coisas que devia ter feito em Barcelona e que não fiz por estupidez pura mas que também não me fazem arrependido para nada e sim para nada é um espanholismo:

–       Surfar nos poucos dias em que houve ondas
–       Enviar ou receber os 5 quilos de envio que a MRW oferece a estudantes
–       Assistir a uma das conferências de empreendorismo do IDEC
–       Bicing
–       Turismo

Since i’ve been gone

February 24, 2011

E depois há isto. Se eu vos pudesse contar o quanto me enche de pica pensar naquela ponte vermelha. O que me lembro. Quando estou no clio com o Falcão e com as pranchas lá atrás. A pica que tenho quando vejo imagens dos táxis e me lembro de estar lá dentro com o Pacheco, o Filipe e os do costume a caminho do Lux. Ver aqueles carris e lembrar-me de como as rodas do meu carro escorregam quando vou jantar fora com a Joana a Santos. E aquele sol, aquela luz gorda, quente que já vi em tantos cafés com o Lisbon, a Quina, a Nádia. Ver os separadores do eixo norte sul e lembrar-me de quando vinha de agronomia de um jogo do Allstars com o Fran, o Pinto. Ver aquelas pedras enormes, a calçada, e saber que já as pisei ao lado da Mariana Ferreira provavelmente a caminho de um concerto. Ver a Avenida da Liberdade e lembrar-me de comer castanhas antes de entrar no Coliseu. Ver a descida para o Jamaica e lembrar-me do Manel. Ver naquelas ruas o caminho para a minha casa, onde esteve sempre à minha espera, sempre, uma mãe de um coração enorme. Lembrar-me de uma avó com uma energia absurda. Eu vivo aqui. Eu vivo onde vocês vivem. Onde vives tu Marta, tu Daniela, tu Margarida, tu Sofia. Eu vivo aqui.

You’re the night

February 22, 2011

O passado serve-nos de muita coisa boa e muita coisa má. Uns dias visita-nos com memórias de coisas que nos encheram, de coisas que aprendemos, outras dá-nos fantasmas. Eu estou cansado de ser visitado pelo meu passado. Cansado de não dividir as coisas como deve ser e de sentir que este passado me desconcentra do bom que posso ter agora. Do passado quero só o bom, do presente quero aquilo que perco por ser estúpido. E ainda por cima é tão bom, tão diferente, tão novo, tão igual ao que sou. Na minha vida descomplico tudo menos o que é mais importante descomplicar. Isto já cansa.

“Isto assim é que não esta certo. A gente assim não pode viver, a gente nem ganha para comer, nem tem descanso”

Eu gosto do meu país, mas não é por causa dos políticos. Eu gosto do meu país, mas não é porque se tem de estagiar 6 meses com a frase “não fiques com esperanças que nós não estamos a admitir ninguém”. Eu gosto do meu país, mas não é porque há pessoas a trabalhar 10 anos com o mesmo ordenado. Eu gosto do meu pais, mas não é porque se trabalha das 8h30 até as 21h30 e aos fins-de-semana como se fosse uma coisa normal. Eu gosto do meu país, mas não é porque nos temos supostamente de sentir bem com um emprego de merda. Eu gosto do meu país porque tem cidades lindas, cheias de mar e de sol. Gosto do meu país porque tem Lisboa, a capital, cheia de vida, de arte, de música, de bares, de restaurantes. Gosto do meu país porque tem o Porto, com uma baixa nova, com uma zona ribeirinha mais bonita que a de Liubliana, com o mar ali tão perto. Gosto do meu país porque tem a Costa Alentejana. Gosto do meu país porque tem os melhores festivais de Verão da Europa. Gosto do meu pais porque me deixa passar uma semana no Algarve. Gosto do meu país porque está cheio de gente boa, que gosta de dar e de receber. Gosto do meu país porque tem poucos snobs, tem pouca gente fria. Gosto do meu país porque somos ligados à nossa costa, ao peixe, ao mar, à água. Gosto do meu país porque não temos medo de emigrar para trabalhar. E então é assim. É óbvio que chegou a uma altura em que é preciso acabar com o que está errado. As coisas deviam mudar porque eu quero continuar a gostar do meu país.

Esta música foi feita há mais de 30 anos. Ainda está actual. Mas mudam algumas coisas. A carência e o desemprego deixaram de estar só nos pescadores. De certa forma o Ir e Vir continua. Como uma amiga minha que trabalhava como caixa no Continente de Almada depois de ter estagiado 8 horas na SIC, em Carnaxide.